Hermione é negra: isto pode ser uma pergunta ou afirmação, depende quem lê.

Desculpem-me fãs, entre os quais me incluo, mas é com a mais genuína dificuldade e tristeza que faço a seguinte contatação: J.K. Rowling é tão racista quanto qualquer pessoa branca.

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Primeiro, precisamos entender minimamente o que é racismo. Ele é bastante amplo e é muito difícil as pessoas se reconhecerem como racistas, porém não impossível, sobretudo quando estão protegidas atrás de seus computadores ofendendo gratuitamente pessoas negras ou de outras etnias.

Racismo é uma estrutura. Estruturas formam os modos de pensar e viver em sociedade. Então, sendo bem didática, quando você é branco e é criado em um meio que valoriza e estimula o olhar para o ser branco, através de novelas, filmes, mais filmes, desenhos, propagandas, programas jornalísticos, de culinária, de humor, você é subjetivamente formado como racista. O universo literário não poderia ser diferente. A maioria dos escritores que chegam a um patamar de sucesso são a maioria homens, uma minoria mulheres, mas brancos. Se você é uma pessoa branca, que não tem ou não teve convivência com pessoas negras, a não ser quando essas pessoas estavam trabalhando em sua casa, ou em seu condomínio, ou em sua faculdade, você não tem muito como escapar de ser racista, pois suas vivências o direcionam para essa “valorização” do mundo enquanto branco. As escolhas afetivas estarão orientadas para a branquitude. Porque quando você é estimulado desse modo desde cedo, seus interesses irão filtrar suas escolhas, sua forma de enxergar o mundo. E em um mundo que o tempo todo diz que ser negro é ruim, que a cor preta é sinônimo de maldade, que tudo o que é escuro lembra trevas e perversidade (o lado negro da força de Star Wars é visto como maléfico e no próprio mundo de Harry Potter o bruxo Voldemort é referido também como Dark Lord) esse direcionamento se torna mais efetivo.

Dei uma olhada entre meus amigos de facebook que curtiam Chimamanda Ngozi Adichie e Mia Couto. Ambos são escritores africanos, a primeira é Nigeriana, o segundo, Moçambicano. Chimamanda é uma mulher negra e Mia é um homem branco. A maioria dos meus amigos brancos sequer leram uma linha de Chimamanda, mas se contentam muito com Mia. As leitoras de Chimamanda são a maioria gritante mulheres negras. Isso é só uma palhinha para a gente entender como o racismo é estrutural, uma vez que as pessoas direcionam seus olhares e seus interesses para a raça branca sem se questionar porque isso acontece tão automaticamente.

Mas o que isso tem a ver com Hermione?

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Primeiramente, quero dizer que simplesmente amo a ideia da Hermione negra. Acho que ela faz muito mais sentido sendo negra. Mas vejamos o que a autora da série Harry Potter tem a nos dizer:

A criadora da saga Harry PotterJ.K. Rowlingdefendeu desde o início a escalação de Noma Dumezweni, reiterando que, nos livros, a cor de pele da heroína nunca foi descrita — somente seus olhos castanhos, cabelos crespos e inteligência. Agora, a autora revelou sua frustração pela reação de “um monte de racistas” em relação à Hermione:
“Com minha experiência em mídias sociais, eu imaginei que idiotas seriam idiotas. Mas o que você pode dizer? Esse é o jeito que o mundo é. Noma foi escolhida porque ela foi a melhor atriz para o trabalho”, disse em entrevista ao the Observer. Para quem não sabe, Dumezweni é ganhadora do Oscar Award, um dos maiores prêmios do teatro britânico.”

“Rowling ainda completou: “Um monte de racistas me disseram que como Hermione ‘virou branca’ – isso quer dizer, perdeu a cor do seu rosto depois de um choque – ela tem que ser uma mulher branca, [afirmação] com a qual tenho muita dificuldade. Mas eu decidi não ficar muito agitada em relação a isso e afirmar com bastante firmeza que Hermione pode ser uma mulher negra com minha benção absoluta e entusiasmo.”

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Imagem de: Ovelha

Para muitos fãs de Harry Potter, particularmente os que são negros, é com o mesmo entusiamo que Rowling diz sentir que imaginamos Hermione como negra, pois muitas de suas características nos levam a pensar desse modo – quando Hermione faz uma poção polissuco para melhorar a aparência do cabelo; quando milita pelos elfos domésticos; por sua insistência em ser a melhor em tudo, pois falhar significa fracasso. Essas características são muito comuns em pessoas negras, pois tem de lutar desde criança contra milhares de estereótipos e menosprezos. Mas a pergunta que não quer calar é: por que Hermione não é descrita, para além de seu cabelo indomável, dentões e sardas, como tantas outras personagens são? Por que Hermione pode (ou não) ser negra? Qual o motivo de ela não ser descrita como uma menina negra desde o início?

Vejamos o que Rowling tem a dizer sobre Dino (Dean) Thomas:

“Qualquer um que tenha lido ambas as versões Americana e Britânica de “Harry Potter e a Pedra Filosofal” irá notar que a aparência de Dino Thomas não é mencionada no livro Britânico, enquanto que na versão Americana há uma linha descrevendo-o (no capítulo “O Chapéu Seletor”).

Rowling declarou que “Foi um corte editorial na versão Britânica; meu editor achou que aquele capítulo estava longo demais, e cortou tudo que achava excessivo. Quando surgiu a questão de distribuir os papéis na versão cinematográfica de A Pedra Filosofal, no entanto, eu disse ao diretor, Chris, que Dino era um Londrino negro. De fato, eu acho que Chris ficou um tanto quanto confuso com a quantidade de informação que eu tinha desse personagem periférico. Eu tinha muita informação sobre Dino, ainda que eu não tenha encontrado o lugar certo para usá-la. A história dele foi incluída em um antigo esboço para A Câmara Secreta, mas então cortada por mim porque parecia uma digressão desnecessária. Agora eu não acho que sua história irá entrar em algum livro.”

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Tendo em vista esses dois recortes, e o nosso interesse está voltado para a Hermione, mas não poderíamos ignorar essa repetição com Dino, não vemos sua descrição como uma possibilidade negra dentro do universo Harry Potter em nenhum lugar da estória. Propositalmente ou não, quando um livro é produzido, o autor o escreve a partir de suas próprias experiências de vida, o que pode resultar em negação de protagonistas não-brancos. Podemos chamar de licença literária, na qual o autor pode se expressar de forma livre sem se prender a rótulos, a regras. Ou como Rowling faz, nomear como digressão. Mas podemos pensar em termos de responsabilidade social e, tomando como pressuposto o racismo, que ele invisibiliza e nega a negritude, autores a autoras brancos se desresponsabilizam de se pensarem como reprodutoras de um sistema opressor. Por que não construir personagens negros tipificados e protagonistas, para que sejam trazidos afirmativamente à imaginação? Se consigo imaginar uma oriental Cho Chang é tão simplesmente pelo nome da personagem; irmãs Parvati e Padma como indianas, pois seus nomes fazem reverência direta à cultura indiana. Mas meu imaginário vai estar construído para visualizar Hermione como branca por essa recusa (inconsciente ou não) em sua caracterização, e em último caso como negra a partir do momento em que uma atriz seja qualificada para interpretar, com o devido aval da escritora, apesar de um mundo inteiro reagindo contra. Isto é, Hermione pode ser negra, ainda que não seja na concepção de Rowling. Assim como Harry Potter pode ser negro, como Rony também, Dean Thomas. Então, trata-se de uma questão de negação da raça negra enquanto possível a nível de representação direta:

…o termo ‘representação’ se refere ao modo de apreensão de um objeto ou fenômeno por parte de um sujeito (ou meio de representação, como o caso de um livro, de uma pintura, etc.), o que significa que para que haja um ato de representação é preciso que haja alguém (ou algo) que representa alguma coisa (não necessariamente algo distinto de si mesmo; no caso do sujeito, é possível falar deste como representando a si mesmo).” (Magdalena Arnao, 2008, p.189)

Aliás, uma curiosidade: o nome Hermione remete a uma personagem da mitologia grega, ela é filha de Helena e Menelau. 😉

É comum as pessoas usarem o argumento de não verem cor para mostrarem o quanto repudiam o racismo e repetirem sem pensar que somos todos iguais. É no mínimo uma ofensa aos daltônicos! E ser diferente um do outro não é algo ruim, nem bom. É natural. Não ver cor significa ignorar a diversidade, as tonalidades de pele e a história que carregam. Não há como negar a importância das estórias fantásticas de Rowling, mas #ficaadica para as escritoras futuras de que não pega mal se deter na pigmentação das personagens de vez em quando, nem falar que são negras/negros de modo direto, principalmente tendo como ponto de partida uma luta pela diversidade, pela afirmação das diferenças e da complexidade. A diferença e a diversidade nos torna interessantes, imagina que louco se a arte imitar a vida!

Fontes:

J.K. Rowling fala sobre críticas racistas à Hermione de peça teatral de Harry Potter: http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-122035/

Um pouco mais sobre a vida de: Dean Thomas (Dino Thomas): http://wwwharrypotterworld.blogspot.com.br/2010/10/um-pouco-mais-sobre-vida-dedean.html

A distinção representação da representação de palavra e representação de coisa na obra freudiana: mudanças teóricas e desdobramentos filosóficos: http://www.scielo.br/pdf/agora/v11n2/a02v11n2.pdf

(grifos meus)

Dica de leitura:

O que a nova história de J.K. Rowling revela sobre a apropriação cultural

http://www.brasilpost.com.br/2016/04/04/story_n_9609490.html.

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